Quando apareceu a oportunidade de participar da primeira edição do Vai de Roteiro pelo Autódromo de Interlagos, achei que seria uma experiência diferente dos outros passeios que eu já havia feito pelo programa. E foi exatamente isso que aconteceu.
Dessa vez, o destino não era um bairro histórico, um museu ou uma região cheia de edifícios antigos. O roteiro acontecia dentro de um espaço construído essencialmente em torno de uma paixão: o automobilismo.
O passeio começou na região da Estação Autódromo, e uma parte do deslocamento foi realizada de micro-ônibus. Isso foi importante porque o Complexo de Interlagos é enorme. Depois, já dentro do autódromo, boa parte da experiência foi feita a pé.
E prepare as pernas.
As duas horas e meia passam por diferentes partes do complexo, e é justamente caminhando que começamos a perceber a dimensão de Interlagos. Pela televisão, a pista parece relativamente compacta. Estando ali dentro, a percepção muda completamente.
Uma das primeiras coisas que me chamou atenção foi poder observar o circuito sem o barulho dos motores, sem arquibancadas lotadas e sem a movimentação de um grande evento. Interlagos vazio tem outra personalidade. É quase estranho imaginar aquele espaço silencioso recebendo Fórmula 1, Stock Car, festivais e milhares de pessoas.
O Autódromo de Interlagos foi inaugurado em 1940 e passou por diversas transformações ao longo das décadas. A pista atual possui pouco mais de 4,3 quilômetros, e sua história está diretamente ligada a alguns dos momentos mais importantes do automobilismo brasileiro.
Durante o roteiro fomos conhecendo justamente essas mudanças. O guia explicou a origem de Interlagos, as reformas realizadas no circuito, a chegada da Fórmula 1 e alguns dos grandes personagens que correram por ali.
É interessante imaginar que pilotos como Emerson Fittipaldi, José Carlos Pace, Nelson Piquet e Ayrton Senna passaram exatamente por aquele asfalto onde nós estávamos caminhando tranquilamente e tirando fotografias.
Naturalmente, Ayrton Senna ocupa um espaço enorme nessa história.
Encontramos diferentes homenagens ao piloto, entre elas um enorme mural que domina uma das construções do complexo. É impossível passar por ele sem parar.
A escala da pintura impressiona ainda mais pessoalmente. Senna aparece levantando um troféu, e estar diante daquela imagem justamente dentro de Interlagos cria uma conexão imediata com tudo que aquele lugar representa para o automobilismo brasileiro.
Também encontramos uma grande escultura de Ayrton Senna. E ali, claro, vieram várias fotos.
Algumas mais sérias.
Outras nem tanto.
Talvez essa seja uma das partes mais interessantes do passeio: mesmo quem conhece pouco de automobilismo reconhece Ayrton Senna e entende a dimensão simbólica que ele possui naquele espaço. Foi em Interlagos que ele conquistou vitórias históricas no Grande Prêmio do Brasil em 1991 e 1993.
Mas o ponto alto para mim foi realmente entrar na pista.
Existe uma diferença enorme entre olhar o circuito de uma arquibancada e colocar os pés naquele asfalto. Quando ficamos no meio da pista, cercados pelas grades e arquibancadas, comecei a ter uma percepção totalmente diferente das curvas, das elevações e da largura do circuito.
A televisão achata tudo.
Ali dentro você percebe que Interlagos possui subida, descida, curvas fechadas e mudanças de relevo que ajudam a explicar por que o circuito é tão particular.
Também passamos por áreas próximas às arquibancadas e por estruturas normalmente vistas apenas durante grandes eventos. Em alguns pontos conseguimos observar praticamente todo o complexo de cima, e aí a dimensão de Interlagos fica ainda mais evidente.
Foi uma oportunidade rara de conhecer o autódromo sem a lógica de um evento. Não estávamos ali para assistir a uma corrida. O próprio espaço era a atração.
Nesse aspecto, achei o roteiro muito bom.
Mas saí de lá com uma pequena ressalva.
Eu já tinha participado de outros Vai de Roteiro, como Liberdade, Ipiranga e outros passeios históricos da cidade, e nesses roteiros normalmente existe uma quantidade enorme de pequenas histórias: personagens desconhecidos, acontecimentos escondidos, transformações sociais, curiosidades arquitetônicas e fatos que mudam a maneira como enxergamos aquele lugar.
Em Interlagos senti um pouco menos disso.
A história do circuito foi apresentada, assim como Ayrton Senna e outros pilotos, mas em determinados momentos senti que faltavam histórias humanas e curiosidades mais aprofundadas. Algo que fosse além da cronologia do autódromo e dos grandes nomes do automobilismo.
Isso não significa que o passeio seja ruim. Muito pelo contrário.
Acho que essa percepção também depende bastante de quem está fazendo o roteiro.
Para alguém apaixonado por Fórmula 1 e automobilismo, entrar em Interlagos, caminhar pela pista e conhecer áreas do complexo já é praticamente um prato cheio.
Quem acompanha corridas provavelmente reconhece curvas, estruturas e lugares que viu durante anos pela televisão. Nesse caso, o próprio espaço já carrega uma carga emocional enorme.
Para quem não acompanha automobilismo, entretanto, acredito que existem outros roteiros do programa com uma diversidade histórica e cultural maior.
Uma história que ouvi durante o passeio também me fez pensar sobre a relação entre o Autódromo e o bairro ao seu redor. Uma pessoa da região comentou que, em outra época, determinados acessos pelo complexo facilitavam o deslocamento cotidiano dos moradores. Segundo esse relato, hoje algumas pessoas precisam fazer um contorno maior para chegar ao outro lado.
Prefiro registrar isso exatamente como ouvi: como uma percepção de quem vive próximo ao Autódromo, e não como uma afirmação de que isso seja consequência de uma privatização. Inclusive, pesquisando depois, descobri que o processo de concessão do complexo lançado anteriormente acabou sendo revogado, e o Autódromo permanece sob administração municipal.
Mesmo assim, achei interessante ouvir esse outro lado.
Para quem visita, Interlagos é Fórmula 1, Senna, velocidade e grandes eventos.
Para quem mora ali, também é parte do bairro.
E equipamentos públicos desse tamanho inevitavelmente interferem na circulação e na rotina das pessoas ao redor.
No final das duas horas e meia, saí com uma avaliação positiva da experiência. Talvez não tenha sido o Vai de Roteiro com maior quantidade de histórias que já fiz, mas certamente foi um dos mais diferentes.
Nunca tinha caminhado por um autódromo dessa maneira.
Nunca tinha parado no meio de uma pista de Fórmula 1 simplesmente para tirar uma fotografia.
E nunca tinha observado Interlagos com tanto tempo para prestar atenção no próprio espaço.
Por isso, acredito que o roteiro encontrou um público muito claro.
Se você gosta de automobilismo, vá.
É uma oportunidade excelente de conhecer por dentro um lugar que normalmente enxergamos atrás de grades ou pela televisão.
Se corrida não é muito a sua praia, talvez outros roteiros do Vai de Roteiro revelem mais sobre a história de São Paulo.
E está tudo certo.
A cidade é grande justamente porque consegue oferecer os dois.


