Eu já tinha passado pelo Theatro Municipal outras vezes pela região central de São Paulo, mas existe uma diferença enorme entre enxergar aquele edifício no caminho e parar diante dele sabendo que, desta vez, eu atravessaria suas portas. Na tarde de 7 de agosto de 2026, fiquei alguns minutos observando a fachada antes do início da visita. Entre carros, pedestres, vendedores, prédios modernos e toda a agitação típica do centro, o Municipal permanecia ali com uma presença quase teatral. As enormes colunas, esculturas, arcos, janelas e inscrições pareciam pertencer a outra cidade, embora estivessem exatamente no coração da São Paulo que conhecemos hoje.
Naquele momento tentei imaginar a mesma região há mais de cem anos. A construção do Theatro começou em 1903, a partir de projeto do escritório de Ramos de Azevedo, com participação dos arquitetos italianos Cláudio Rossi e Domiziano Rossi. Depois de oito anos de obras, o edifício foi entregue à cidade em setembro de 1911. Na inauguração, cerca de 20 mil pessoas se concentraram ao redor do prédio para observar a novidade e a iluminação que impressionava para os padrões da época. O próprio Theatro registra que o edifício foi o primeiro da cidade totalmente abastecido por energia elétrica.
Mais de um século depois, ali estava eu, fazendo praticamente o movimento inverso: deixando a São Paulo contemporânea do lado de fora e tentando entrar, por algumas horas, naquela cidade de 1911. A visita aconteceu acompanhada por um guia do Vai de Roteiro, e esse detalhe mudou completamente a experiência. Em vez de simplesmente atravessar corredores admirando o que era bonito, comecei a enxergar cada ambiente como um documento histórico. O programa da Prefeitura existe justamente para apresentar os principais pontos da cidade acompanhados por profissionais credenciados, e no Municipal isso faz muita diferença: cada detalhe possui uma história escondida.
O grupo se reuniu próximo ao acesso do edifício, e uma das primeiras coisas que me chamou atenção foi o teto de vidro acima de nós. Foi quando começou um hábito que me acompanharia praticamente durante toda a visita: olhar para cima. Em prédios contemporâneos, normalmente prestamos atenção em portas, corredores e no destino para onde estamos indo. No Municipal, o teto também participa da arquitetura. Os vitrais, molduras, luminárias e desenhos fazem com que até os espaços de circulação tenham algo a mostrar. Eu ainda estava no começo do roteiro e já tinha a sensação de que conseguiria passar horas observando detalhes.
Essa abundância visual não surgiu por acaso. A arquitetura do Theatro foi inspirada nos grandes teatros europeus, particularmente na Ópera de Paris, e o projeto refletia a ambição de uma São Paulo que crescia rapidamente graças à riqueza produzida especialmente pelo café. O edifício precisava representar aquela nova condição econômica e cultural da cidade. O resultado foi uma construção monumental, repleta de materiais nobres, ornamentação e referências artísticas europeias. Mais de cem anos depois, essa intenção continua evidente: atravessar seus espaços internos ainda produz uma sensação de cerimônia.
Então apareceu a escadaria principal, e talvez tenha sido o momento em que percebi que a fachada não havia entregado tudo. Mármore, balaustradas, esculturas, colunas, arcos, vitrais, douramentos e luminárias formavam uma composição quase cenográfica. Parei por alguns instantes apenas observando. Havia uma escada para subir, mas parecia que o objetivo dela não era simplesmente levar alguém de um pavimento para outro. O percurso tinha sido desenhado para ser visto. Era como se o espetáculo começasse muito antes da abertura das cortinas.
Subindo os degraus, pensei também no público que circulava naquele mesmo espaço no início do século XX. O Municipal surgiu em uma cidade profundamente desigual, e inicialmente esteve ligado aos hábitos culturais das elites paulistanas que desejavam uma casa de espetáculos comparável às grandes instituições europeias. Essa dimensão faz parte da história do edifício. Admirá-lo não exige ignorar as contradições de sua época. Pelo contrário: entender o Theatro significa perceber tanto seu valor artístico quanto a sociedade que o construiu, porque patrimônio também serve para perguntar quem podia ocupar determinados espaços e como essa relação mudou ao longo do tempo.
O mais interessante é que aquele edifício criado sob forte inspiração europeia acabaria se tornando palco de um movimento que questionaria justamente a dependência cultural brasileira em relação à Europa. Em fevereiro de 1922, apenas onze anos depois da inauguração, o Municipal recebeu a Semana de Arte Moderna, entre os dias 13 e 17. Artistas e intelectuais como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Di Cavalcanti e Heitor Villa-Lobos participaram daquele movimento que defendia novas formas de criação e ajudaria a consolidar o Modernismo brasileiro.
Foi impossível não pensar nessa ironia enquanto caminhava pelos ambientes ornamentados. Um edifício inspirado nos grandes teatros europeus tornou-se cenário de artistas que queriam romper com padrões acadêmicos importados e buscar outras maneiras de pensar a cultura brasileira. De repente, aqueles corredores não eram mais apenas bonitos. Eu conseguia imaginar a agitação de fevereiro de 1922, as apresentações, conferências, vaias, debates e provocações acontecendo dentro de um lugar que hoje visitamos quase em silêncio.
Essa camada histórica talvez tenha sido uma das partes que mais gostei da experiência. Quando estudamos a Semana de Arte Moderna na escola, 1922 costuma aparecer como uma data em um livro. Estar dentro do edifício em que parte daqueles acontecimentos realmente ocorreu muda a escala da história. Eu não estava observando uma fotografia do lugar. Estava caminhando pelo próprio cenário. Mais de um século separava minha visita daqueles dias, mas as paredes, os salões e a arquitetura criavam uma conexão física com aquele episódio.
Ao mesmo tempo, fui percebendo que reduzir o Municipal à Semana de 22 seria injusto. Durante mais de um século, aquele palco recebeu óperas, concertos, balés, peças teatrais e artistas brasileiros e estrangeiros. Nomes como Maria Callas, Duke Ellington, Ella Fitzgerald, Isadora Duncan e Rudolf Nureyev estão entre os artistas internacionais que já passaram pelo Theatro. Hoje, o complexo continua relacionado a corpos artísticos como a Orquestra Sinfônica Municipal, o Coro Lírico, o Coral Paulistano, o Balé da Cidade e outras formações.
E existe algo curioso em visitar um teatro fora de um espetáculo. Normalmente, quando entramos em um lugar assim, existe uma apresentação como destino: sentamos, as luzes diminuem e concentramos nossa atenção no palco. Na visita guiada, aconteceu o contrário. O próprio edifício virou protagonista. A escadaria era cenário. O vitral era obra. O corrimão merecia atenção. A luminária possuía história. O mármore deixava de ser simplesmente parte da parede. Pela primeira vez, eu estava ali sem pressa para chegar ao próximo ato porque o ato era justamente observar o espaço.
Uma das minhas fotografias favoritas mostra a escadaria enquadrada pelas esculturas e pelas antigas luminárias. Gosto dela porque reúne muitas características do Municipal em uma única imagem: movimento, ornamentação, verticalidade e luz. As figuras parecem receber quem sobe, enquanto o vermelho do tapete conduz o olhar até os pavimentos superiores. Foi um daqueles momentos em que a câmera ajuda a registrar a visita, mas também atrapalha um pouco, porque nenhum enquadramento consegue reproduzir exatamente a sensação de estar ali.
O mesmo aconteceu com os vitrais. Fotografei alguns deles praticamente apontando a câmera diretamente para o teto. Vistos de baixo, os desenhos parecem organizar a entrada da luz e transformar algo funcional em decoração. É um nível de detalhe que diz muito sobre a arquitetura daquele período: praticamente nenhuma superfície importante precisava ser neutra. Portas, tetos, paredes, colunas, luminárias e esquadrias podiam participar de uma linguagem visual única.
Ao longo do passeio também pensei no próprio centro de São Paulo. Do lado de fora, fotografei o Municipal cercado pelos edifícios altos que foram surgindo ao longo das décadas. Esse enquadramento talvez seja um dos meus preferidos porque parece condensar mais de um século de cidade em poucos metros. Em primeiro plano está um monumento inaugurado em 1911. Atrás dele, torres de outras épocas. Na rua, ônibus, carros, bicicletas, trabalhadores, visitantes e vendedores. Nada está congelado, embora o patrimônio continue presente.
Isso me fez perceber que preservar o Theatro Municipal não significa transformar o centro em uma fotografia antiga. São Paulo mudou e continuará mudando. Preservar significa permitir que elementos importantes de diferentes momentos continuem participando dessa transformação. O Municipal já passou por grandes processos de reforma e restauro ao longo de sua história, incluindo intervenções nas décadas de 1950, entre 1986 e 1991 e no período de preparação para seu centenário. O desafio sempre foi conciliar preservação arquitetônica com as necessidades técnicas de um teatro que continua funcionando.
Existe também algo simbólico no fato de o edifício continuar ativo. Seria fácil transformá-lo apenas em monumento, abrir suas portas para turistas e tratá-lo como uma peça preservada do início do século XX. Mas ele continua sendo palco. Novas óperas, concertos, espetáculos de dança e outras manifestações artísticas continuam acontecendo ali, enquanto visitas educativas aproximam o público de sua arquitetura e memória. O próprio programa de visitas do Municipal propõe discutir não apenas o edifício, mas sua relação artística, social e patrimonial com a cidade.
No final do roteiro, descemos novamente e saímos para os degraus da entrada. Tiramos uma fotografia em grupo diante da fachada. Ela é simples, mas acabou se tornando uma das imagens que melhor representa a visita para mim. Atrás de nós estava um edifício com mais de cem anos de história. À nossa frente, o movimento contemporâneo do centro. E entre os dois estava aquele grupo de pessoas que havia acabado de conhecer um pouco melhor uma cidade que, apesar de ser percorrida diariamente por milhões de habitantes, ainda consegue esconder histórias atrás de portas pelas quais passamos sem entrar.
Quando me afastei do Municipal e olhei novamente para sua fachada, ela já não parecia exatamente a mesma que eu tinha visto no começo da tarde. As colunas continuavam no mesmo lugar. As esculturas também. Nada havia mudado fisicamente em pouco mais de uma hora. Quem tinha mudado era meu olhar. Agora eu sabia o que existia depois daquelas portas, conseguia imaginar os salões cheios no início do século XX, lembrava dos modernistas de 1922, entendia melhor os detalhes arquitetônicos e sabia que por aquelas escadas haviam passado gerações de artistas e espectadores.
Foi justamente isso que tornou essa visita especial. Não precisei assistir a uma ópera, a um concerto ou a um balé para sentir que havia entrado em um teatro. Durante aquela tarde, o espetáculo foi o próprio Theatro Municipal de São Paulo. O palco era sua história, o cenário era sua arquitetura e nós, visitantes, caminhávamos lentamente por uma narrativa iniciada em 1903 e que ainda não terminou. Quando atravessei novamente as portas para voltar à rua, levei comigo aquela sensação rara de ter passado por um lugar que não apenas testemunhou a história cultural de São Paulo, mas continua ajudando a escrevê-la.

